Ativa Naviraí | Notícias, Imagens, Vídeos e Entrevistas

MENU
Logo
Sábado, 12 de junho de 2021

Naviraí

Naviraiense jogou em Portugal, venceu a depressão e tornou-se médico

A vida de Edmar Figueira vai dar um livro

Imagem de capa
A-
A+
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Não há queixas a apresentar, apenas curiosidade. Curiosidade por uma história condenada a acabar em livro. Ou em filme.

Edmar, antigo atleta do Feirense – já lá iremos -, está a concluir o quinto ano de Medicina. Vive em Naviraí, cidade no Mato Grosso do Sul bem próxima da fronteira com o Paraguai, e divide-se entre os dois países na luta contra a pandemia.

Tenho já cinco anos de Medicina e ainda terei de fazer uma especialização. Estudei muito, fui confrontado com situações incríveis no último ano, mas não posso dizer que já me sinto preparado para tudo. Não. Mas posso dizer que ganhei gosto pelo estudo e pela possibilidade de ajudar quem mais precisa.»

Aos 37 anos de idade, Edmar tem o discurso de um homem com séculos de vida. Várias vidas numa só. Ajuda o próximo, depois dele próprio precisar de ser ajudado. O desabafo é poderoso.

«Parei de jogar em 2015 e tive uma depressão. Senti um vazio enorme. Sofri uma lesão crónica, uma infeção no músculo posterior da coxa esquerda. Só tinha 31 anos. O meu último golo foi marcado ao Alisson, o guarda-redes que está agora no Liverpool e na seleção do Brasil. Ele estava no Internacional e eu no São Paulo do Rio Grande do Sul. Estive dois anos a tentar recuperar-me da lesão e nunca consegui», começa por contar.

«Passei por mais de 40 países ao longo da minha carreira. Vi tudo o que tinha de ver. Quando acabou tudo, cheguei a casa, sentei-me e perguntei: ‘e agora, o que vou fazer?’. Foi nessa altura que soube da abertura de um curso de Medicina a 100 quilómetros de minha casa, numa cidade paraguaia [Salto del Guairá]. Tentei e consegui entrar à primeira.»

Aquilo que era o início de um novo ciclo significou também o fechar de muitas portas. Acabou o futebol e acabou o casamento. A mulher de Edmar tinha uma filha pequena nos braços e não aceitou as horas que o marido passou a dedicar aos estudos.

«Ela passava cada vez mais horas sozinha, com a nossa filha pequenina, e fartou-se. Confrontou-me com a separação, pediu para eu deixar a universidade e eu recusei. Perdi o futebol e a minha mulher. Senti-me devastado.»

Emocionalmente debilitado, e ainda no início de um rumo que lhe parecia incerto, Edmar Figueira fez o que nunca antes fizera: entregou-se ao mundo fácil da toxicodependência.

Foi aí que vieram a bebida e as drogas. Tive de entrar num tratamento psiquiátrico. Não percebia o que se estava a passar comigo. O que é incrível é que mesmo nesse período nunca deixei o meu curso de Medicina. Tratei-me, recuperei e estava nessa fase de reencontro com a vida quando apareceu a pandemia.»

As aulas online na Universidade de Harvard e a preocupação com a mãe

Durante a semana, Edmar está no Paraguai a completar a formação como médico. Estuda e ajuda a população. Do ponto de vista clínico, claro, mas também através da entrega de «alimentos, roupas, brinquedos» a milhares de pessoas que estão em sofrimento.

Ao fim-de-semana, o antigo avançado cruza a fronteira para estar com a mãe – diagnosticada com covid-19 no dia em que esta entrevista se realiza – e a filha. Mas não só. Os dias de Edmar parecem ter mais de 24 horas e ainda tem tempo para colocar em dia as aulas online que frequenta na… Universidade de Harvard.

Dizem que eu sou louco (risos). A Universidade de Harvard, juntamente com outras instituições de ensino renomadas dos EUA, lançou uma plataforma de cursos online gratuitos. Apenas o diploma tem um custo. Então, paralelamente ao meu curso de Medicina na Universidade Sudamericana, tenho feito várias especializações através do site de Harvard, que se chama Edx. Até tem as iniciais do meu nome.»

Natural de Naviraí, Edmar tem também um projeto para a cidade. Tudo em nome da comunidade e da luta contra o maldito coronavírus.

«Ainda hoje tenho uma reunião com a prefeita de Navaraí. Vou propor a entrada de 30 estudantes de Medicina na Santa Casa local, para que possam ajudar na pandemia. Desejo que a resposta seja positiva. Será mão de obra gratuita e valiosa», conta Edmar, até ansioso pelo desenlace da conversa.

Acabou o futebol, perdeu o casamento, entregou-se às drogas, entrou em Medicina e dedica a vida a ajudar quem mais precisa. Digno de um argumento de Hollywood.

«Disse que o Feirense se ia intrometer entre o FC Porto e o Benfica»

E o futebol? Edmar Figueira perdeu o pai aos 13 anos, aos 15 saiu de casa e aos 18 já estava a jogar no Grasshoppers, da Suíça. Nunca teve medo do desconhecido, aventurou-se e conheceu «mais de 40 países» entre 2003 e 2015. Um deles foi Portugal.

Edmar foi contratado no verão de 2011, chegou com o estatuto de ‘reforço de luxo’, deu uma entrevista ao Maisfutebol e… foi dispensado. Tudo isto no espaço de um mês. O que se passou? Dez anos depois, e pela primeira vez, o ex-atacante conta tudo.

«Eu estava na Tailândia para assinar por um clube que era treinado pelo professor Henrique Calisto [Muanghtong United] quando comecei a receber telefonemas do Feirense. Foi irrecusável. Era uma proposta para jogar na 1ª divisão de um país europeu e a auferir dez mil euros por mês.»

Edmar foi da Tailândia para o Brasil, passou uns dias de descanso e chegou a Santa Maria da Feira com o conta-quilómetros a zero. «Eles já estavam a meio da pré-época. Iam a 1000 à hora e eu ia a dois. Pedi para terem calma, porque eu ia fazer muitos golos.»

O brasileiro tinha 27 anos e chegava da Índia com três troféus individuais. «Tornei-me um ídolo no Pune FC. Fui o melhor jogador do campeonato, o melhor marcador com 15 golos e jogador do ano no clube. Cheguei ao Feirense na melhor altura da minha carreira.»

Nos primeiros dias, Edmar treinou à parte, lado a lado com Rabiola. O português recuperava de uma cirurgia ao joelho e o brasileiro procurava a condição física. Chegou a 22 de julho e a 28 foi titular contra o Marítimo, na apresentação aos sócios.

No dia a seguir, afirmou na conversa com o nosso jornal que o Feirense se iria intrometer «entre FC Porto e Benfica». O treinador Quim Machado não gostou do que leu.

Acho que ele ficou com medo, deve ter achado que eu era maluco e que lhe ia arranjar problemas. E eu nunca tive problemas com ninguém. Infelizmente, o mister decidiu dispensar-me e acabou com a minha carreira na Europa. Chamaram-me para rescindir e foram buscar um avançado francês [Bedi Buval]. Fui para a Roménia e soube que o Feirense acabou por descer.»

Esta é a exceção ao discurso sereno e maduro. Edmar lamenta até hoje a «covardia enorme» dos responsáveis do Feirense em 2011.

«Recusei outras opções, dediquei-me ao Feirense e depois nem um mês me deram. Eles ligaram-me, ligaram-me, eu decidi aceitar e depois fizeram-me aquilo. Expliquei ao presidente que estava mal fisicamente, ainda a começar e não quiseram esperar.»

Arménia, Costa Rica, Índia, Roménia, Suíça, Alemanha e, em plena guerra civil, a Síria. Faltava esta história para acabar a consulta com o doutor Edmar Figueira. Como é que se convence um avançado brasileiro de 29 anos a ir para a Síria, quando o país estava em implosão?

«É verdade, joguei na Síria e logo na equipa do exército, o Al-Shorta. Eu jogava na Alemanha [FC Oberneuland, em Bremen] e ligaram-me com esse convite: ‘aquilo está em guerra, mas é tranquilo’ (risos). E lá fui. Joguei a Liga dos Campeões asiática, conheci países que nunca antes tinha ouvido falar e até ao Tajiquistão fui jogar. Depois tive de fugir do conflito, porque a situação piorou muito e os mísseis começaram a cair demasiado perto.»

Edmar Figueira. Um médico que salva vidas no Brasil e no Paraguai, depois de se salvar a ele próprio.

Fonte/Créditos: maisfutebol

Créditos (Imagem de capa): Divulgação

Comentários: